Tsai, Tsai.
Jacob Klintowitz

Todo o espaço está tomado por delicadas evoluções florais. O pensamento que presidiu a criação desta coreografia é de tal maneira sutil, que não o percebemos senão pela certeza de que a emanação pressupõe uma fonte. Também a nossa percepção é impregnada pelo fascinante desenho do movimento da natureza, tornado humano pela intencionalidade. A fascinação é esta certeza de que nada existe além da saturação daquele momento. A concepção humana de uma estrutura visual é tão poderosa diante de nós, que nos toma por inteiro, como ficamos diante dos impactos naturais, fixados no mar, na queda d’água, nos vestígios rosas do poente.

Tsai, Tsai, é a aproximada expressão chinesa para a estranha descrição metafísica “colheita das cores”. Não mais a parábola do semeador, mas o seqüente percurso de um artista que recolhe as cores nascidas da primeira semeadura. A fotógrafa Fernanda Friedrich-Genthon escolheu este título para a sua série, porque é assim que se imagina, um ser em contato com o esplendor cromático do mundo. E a sua fotografia, na fronteira da visualidade macia do guache, talvez a única possibilidade de vivência tátil do nosso olhar, recupera para nós um secreto tesouro que se escondia na história da velha China e na nossa imaginação insistente em investigar estes homens, artistas capazes deste extremo domínio estético e filosófico e de abstraírem a si mesmo do resultado final.

A técnica de Fernanda Friedrich-Ghenton é simples e complexa. Ela utiliza a máquina fotográfica digital, o computador e os atuais programas de intervenção na imagem. Mas imprime as suas imagens em papéis de alta qualidade concebidos para suporte de aquarela, desenho e guache. E o olho que utiliza este sistema misto de atualidade e tradição é movido pelo amor à clássica manifestação artística da China. E nela este saber do antigo se organiza na economia do traço, na ocupação essencial do espaço, no diálogo de oposições estéticas e filosóficas. Na sua obra são estruturais o cheio e o vazio, o claro e o escuro, o manifesto e o oculto. E, em nós, na contemplação, se refaz a luminosidade do mistério que rege o clássico e o desprendimento do homem em favor do artista.

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